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Exatamente como a mosca na redoma, a precisão da técnica estilística deriva de
sintaxes disformes, abertas o quanto fossem no sentido mesmo da palavra, que tendem a
torcer o espírito da letra. Quanto mais o sujeito, ou estilista, vive à cata da palavra exata,
menos ele tem à disposição um método expressivo, porque saber que sabe é saber que
não sabe aquilo que sabia. Se acaso o verbo alienado não tem razão de ser no esquema da
figura, o senso da expressão é como uma mosca na redoma.
Ontem mesmo, ao traduzir Shakespeare, percebi uma diferença de causa e de
efeito no composto da álgebra vernacular. De nada vale possuir-se à semelhança de um
poeta perfeito sem o cálculo do estilo do autor. Se escrevo de maneira a dar a impressão
de que escrevo, escrevo com técnica e correção de estilo. Eu vou lhe dar um exemplo
subscrevendo o soneto mesmo que ontem traduzi:
17.
Who will believe my verse in time to come,
if it were fill'd with your most high deserts?
Though yet, heaven knows, it is but as a tomb
which hides your life and shows not half your parts.
If I could write the beauty of your eyes
and in fresh numbers number all your graces,
the age to come would say 'This poet lies:
such heavenly touches ne'er touch'd earthly faces.'
So should my papers yellow'd with their age
be scorn'd like old men of less truth than tongue,
and your true rights be term'd a poet's rage
and stretched metre of an antique song:
but were some child of yours alive that time,
you should live twice; in it and in my rhyme.
17.
Quem já não crê no verso o tempo certo
se estávamos contínuos na intempérie
e cada encanto achava-se na série
que descortina a vida e mata perto
da escrita da beleza do deserto
e o tálamo de cifras tudo fere
como se a idade em bardos desenterre
a sutileza estática do esperto
redesfolhado em páginas de velas
e se enxumilha à cata do vernáculo
e o seu direito entorta as passarelas
medidas já na Antiguidade, cálculo
das meninices que se torcem nelas
as siamesas rimas do cenáculo.
Assim no texto já traduzido, escolher a palavra “redesfolhado” em lugar de
“redescoberto” revela, no ato mesmo da escrita, que não poderia ser um adjetivo tanto
quanto aberto menos fechado, afinal imponente por natureza e assonante por categoria.
Se entretanto eu tivesse usado a palavra “redescoberto”, o texto mataria o espírito do
estilo. A mesma coisa acontece com “enxumilha”, que é uma forma de ser o verbo o
sujeito da redoma e o sentido mais que nítido do estilo de um poeta.
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