A brisa que balança as copas das arvores no lado oeste do Central Park traz consigo um eco familiar que parece congelado no tempo. Quem caminha pela altura da Rua 72 se depara com um fenômeno diário, pessoas de diferentes idades, origens e línguas reunidas em silêncio ou em coro ao redor de um mosaico circular em preto e branco. No centro da obra de pedra, uma única palavra evoca um ideal universal: "Imagine". Batizado de Strawberry Fields, o memorial dedicado a John Lennon transcendeu a condição de mero ponto turístico para se transformar em um santuário dinâmico, onde a memória do ex-Beatle permanece pulsante por meio da música, do afeto e da arte de rua.
O cenário carrega uma carga dramática inevitável. O memorial de formato triangular está localizado exatamente em frente ao edifício Dakota, o imponente e gótico prédio residencial onde Lennon vivia com Yoko Ono e o filho Sean. Foi na entrada desse edifício, na noite de 8 de dezembro de 1980, que o mundo perdeu um de seus maiores ícones artísticos e pacifistas, vítima de um atentado que chocou o planeta. No entanto, a resposta da cidade e de Yoko Ono à tragédia não foi erguer uma estátua de bronze fria e estática. Em vez disso, optou-se por um memorial vivo, inaugurado em outubro de 1985, projetado para mudar com as estações do ano e servir como uma zona de reflexão coletiva.
Todos os dias, o mosaico doado pela cidade italiana de Nápoles funciona como um altar comunitário improvisado. Fãs depositam pétalas de flores, velas acesas, cartas manuscritas e fotografias antigas do cantor. Muitas vezes, os arranjos florais são cuidadosamente moldados no formato do clássico símbolo da paz. Mas o verdadeiro coração desse espaço é a trilha sonora. Músicos de rua e violonistas locais se revezam em uma escala informal para garantir que as composições de Lennon e dos Beatles nunca deixem de ecoar. Sentados nos bancos ao redor, eles dedilham clássicos como "Yesterday", "In My Life" e a própria "Imagine", transformando o luto histórico em uma celebração contínua de sua obra.
Para os nova-iorquinos e para os milhares de viajantes que fazem sua peregrinação anual ao local, a atmosfera do espaço é quase magnética. Estranhos dão as mãos e cantam juntos, guiados pela performance dos artistas que ali encontram seu sustento e sua missão. Há um contraste comovente entre a imponência arquitetônica do Dakota, que assiste a tudo do outro lado da rua como uma sentinela do passado, e a vitalidade artística de Strawberry Fields. Ali, a tragédia não tem a última palavra. O espaço cumpre com perfeição o desejo original de sua criação, manter vivo o espírito de um homem que pediu ao mundo para pensar na paz, provando que, mesmo décadas após sua partida, a canção de John Lennon continua sendo um convite para sonhar.

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