A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) mergulha novamente em uma crise institucional profunda, com o recente afastamento de seu presidente, Ednaldo Rodrigues, reacendendo o debate sobre a integridade e a governança da entidade máxima do futebol nacional. A turbulência atual não é um fato isolado, mas ecoa um passado marcado por décadas de escândalos, corrupção e disputas de poder que remontam à era de João Havelange.
No epicentro da crise mais recente está a destituição de Ednaldo Rodrigues da presidência da CBF, determinada pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) em dezembro de 2023 e reiterada em decisões subsequentes no início de 2024 e novamente em maio de 2025. A principal alegação que culminou em seu afastamento definitivo envolve a suposta falsificação da assinatura do ex-presidente da Federação Paraense de Futebol, Antônio Carlos Nunes de Lima, o Coronel Nunes, em um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado com o Ministério Público do Rio de Janeiro em 2022. Este acordo foi crucial para viabilizar a eleição de Rodrigues.
A Justiça considerou que a irregularidade no TAC comprometia a legitimidade do pleito. Além da questão da assinatura, a gestão de Rodrigues também vinha sendo alvo de acusações de "gestão temerária", com críticas internas sobre favorecimento pessoal, falta de transparência em contratos e decisões controversas, como o apressado anúncio de um acordo com o técnico Carlo Ancelotti para a seleção brasileira, visto por alguns como uma manobra para angariar apoio em meio à crise.
Com o afastamento de Rodrigues, Fernando Sarney, vice-presidente mais velho, assumiu interinamente com a incumbência de convocar novas eleições, expondo mais uma vez a instabilidade crônica no comando da entidade. Samir Xaud, presidente da Federação Roraimense de Futebol, surgiu como candidato, prometendo reformas estruturais e maior transparência. Ele será o candidato único inscrito para substituir Ednaldo Rodrigues. A eleição está marcada para o dia 25 na sede da entidade.
A crise não se limita aos tribunais e gabinetes. Ex-campeões mundiais manifestaram publicamente sua indignação, cobrando profissionalismo e uma gestão íntegra. Há um temor generalizado de que a instabilidade constante prejudique o desempenho da seleção brasileira, a organização dos campeonatos nacionais e a imagem do futebol brasileiro no exterior. A FIFA e a CONMEBOL observam atentamente o desenrolar dos fatos, cientes do histórico de interferências e com o poder de impor sanções caso julguem necessário.
A atual crise da CBF é um sintoma de problemas endêmicos que assolam a entidade há décadas. O "modus operandi" de gestões controversas e acusações de corrupção tornou-se uma triste tradição.
João Havelange (presidente da CBD/CBF de 1958 a 1975 e presidente da FIFA de 1974 a 1998) - Embora sua gestão na FIFA tenha expandido o futebol globalmente, o nome de Havelange ficou indelevelmente manchado pelo escândalo da ISL, empresa de marketing esportivo suíça. Investigações revelaram que ele, juntamente com seu genro Ricardo Teixeira, recebeu milhões em propinas em troca da concessão de direitos de marketing e transmissão de competições. Este caso expôs um sistema de corrupção arraigado nas altas esferas do futebol mundial.
Ricardo Teixeira (presidente da CBF de 1989 a 2012) - Os 23 anos de Teixeira no comando da CBF foram um período de sucessos esportivos ofuscados por uma avalanche de denúncias. Herdeiro do esquema de poder de Havelange, Teixeira também foi implicado no caso ISL. Outros escândalos marcaram sua gestão, como o "voo da muamba" após a Copa de 1994, quando a delegação brasileira retornou com uma quantidade excessiva de mercadorias sem o devido pagamento de impostos. Investigações parlamentares (CPIs), como a que apurou o contrato com a Nike, geraram grande repercussão, mas Teixeira conseguiu se esquivar de condenações no Brasil, muitas vezes blindado por uma complexa rede de influências. O FBI, no entanto, estimou que Teixeira, Marin e Del Nero teriam recebido cerca de R$ 120 milhões em propinas por contratos comerciais. Alegações sobre seu envolvimento na compra de votos para a escolha do Catar como sede da Copa de 2022 também vieram à tona. Em 2019, foi banido pela FIFA de qualquer atividade ligada ao futebol.
José Maria Marin (presidente da CBF de 2012 a 2015) - Sucessor de Teixeira, Marin teve um mandato curto, interrompido por sua prisão em Zurique, na Suíça, em maio de 2015, como parte da megaoperação "FIFA Gate" conduzida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Foi extraditado, julgado e condenado nos EUA por crimes como organização criminosa, fraude bancária e lavagem de dinheiro, relacionados ao recebimento de propinas por contratos de direitos de transmissão de torneios como a Copa América e a Copa Libertadores.
Marco Polo Del Nero (presidente da CBF de 2015 a 2017) - Seguindo a linha sucessória, Del Nero também foi indiciado no “FIFA Gate” pelas mesmas práticas de corrupção de seus antecessores. Para evitar a prisão e extradição, Del Nero não deixou mais o Brasil. Em 2017, foi banido para sempre do futebol pelo Comitê de Ética da FIFA. Sua gestão aprofundou a crise de credibilidade da CBF.
Rogério Caboclo (presidente da CBF de 2019 a 2021) - Eleito com a promessa de renovação, Caboclo também teve seu mandato abreviado. Em 2021, foi afastado da presidência após denúncias de assédio moral e sexual feitas por uma funcionária da entidade, escândalo que mais uma vez expôs a fragilidade da governança interna.
Os repetidos escândalos na CBF revelam problemas estruturais profundos. A concentração de poder, a falta de transparência nos processos eleitorais e financeiros, e a influência desproporcional de algumas federações estaduais em detrimento dos clubes são fatores que perpetuam um ciclo de instabilidade e desconfiança.
A atual crise, com o afastamento de Ednaldo Rodrigues, serve como um doloroso lembrete de que o futebol brasileiro, apesar de sua paixão e talento inegáveis dentro de campo, continua refém de disputas de poder e de um legado de práticas questionáveis em seus bastidores. A sociedade brasileira e os verdadeiros amantes do esporte anseiam por uma CBF que seja sinônimo de integridade, profissionalismo e, acima de tudo, respeito ao futebol. A tarefa de reconstruir a credibilidade da entidade é árdua e exige não apenas novas lideranças, mas uma reforma fundamental em suas carcomidas estruturas.
ROBERTO MAIA É JORNALISTA, ESCRITOR, CRONISTA ESPORTIVO E EDITOR DO PORTAL TRAVELPEDIA.COM.BR
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