No país que respira futebol, costumamos dizer que o tempo é o senhor da razão. No entanto, em relação a Neymar Júnior, o tempo parece ter se tornado um tribunal implacável e, muitas vezes, cego. Enquanto o mundo reverencia o talento técnico de um dos maiores jogadores que já calçaram chuteiras na história do esporte, parte considerável da opinião pública brasileira prefere se fixar no personagem extracampo, ignorando a magnitude estatística e estética de um gênio que está prestes a se tornar "saudade" sem nunca ter sido plenamente um "ídolo unânime" em seu país.
É preciso honestidade intelectual para analisar Neymar. Estamos falando do maior artilheiro da história da Seleção Brasileira em jogos oficiais, superando ninguém menos que Pelé nas contas da FIFA. Para qualquer outra nação do planeta, esse dado seria suficiente para erguer estátuas. No Brasil, ele é tratado como uma nota de rodapé ou um número "inflado" por amistosos, como se marcar gols com a "amarelinha" fosse uma tarefa trivial acessível a qualquer mortal.
A crítica feroz a Neymar no Brasil é um fenômeno sociológico curioso. Há uma mistura de puritanismo com uma exigência de comportamento que nunca aplicamos a outros gênios do passado. Romário, Edmundo e até Ronaldinho Gaúcho sempre tiveram suas vidas particulares agitadas, mas o "fio de cabelo" de Neymar parece incomodar mais do que os deslizes alheios. Criou-se uma narrativa de que ele é o "eterno menino", uma promessa que não se cumpriu. Ora, como um jogador com uma Champions League na bagagem, sendo protagonista e artilheiro, múltiplos títulos nacionais na Europa e um ouro olímpico inédito pode ser chamado de "promessa"?
O que falta ao torcedor brasileiro é a capacidade de separar o entretenimento da performance. Neymar é o último representante do futebol de rua, do drible imprevisto, da finta que humilha o marcador e encanta o espectador. Em um futebol europeu cada vez mais mecanizado, tático e "robótico", Neymar sempre foi o ponto de interrogação que os sistemas de inteligência artificial não conseguem prever. Ele é o drible por prazer, a assistência impossível e o domínio que desafia a física.
As lesões, é verdade, foram cruéis. O corpo, por vezes, não acompanhou a velocidade do raciocínio, mas rotular Neymar como um "fracasso" é um atestado de ignorância esportiva. Durante quase uma década, ele foi o único capaz de sentar à mesa com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, desafiando a hegemonia de dois dos maiores de todos os tempos. Se a Bola de Ouro não veio, foi por detalhes de um calendário ingrato ou por escolhas de carreira que podem ser questionadas, mas jamais por falta de bola.
Existe um componente de ingratidão latente. Neymar carregou o peso de uma Seleção Brasileira em entressafra por mais de dez anos. Em 2014, sua ausência após a joelhada de Zuniga resultou no maior vexame da nossa história. Em 2018 e 2022, ele foi o foco de todas as marcações e ainda assim, produziu lances de puro brilhantismo, como o gol contra a Croácia que deveria ter nos levado a semifinal. Ele chama o jogo, apanha, levanta e pede a bola novamente. É um líder técnico incontestável, mesmo que seu estilo de liderança não seja o do grito, mas o do exemplo com a bola nos pés.
Precisamos parar de exigir que Neymar seja quem nós queremos que ele seja. Ele é um homem do seu tempo, um ícone pop, mas acima de tudo, um operário do talento. Ao atacá-lo com tanto fervor, o brasileiro cospe no próprio prato da criatividade. Estamos punindo o artista pela sua vida pessoal enquanto o palco queima em mediocridade técnica.
Quando Neymar decidir pendurar as chuteiras, haverá um silêncio ensurdecedor no setor criativo do futebol mundial. Olharemos para trás e perceberemos que desperdiçamos anos discutindo suas festas ou seu penteado, enquanto deveríamos estar apenas agradecendo por ele ser brasileiro. É hora de baixar as armas do julgamento moral e aplaudir, enquanto ainda há tempo, o último dos românticos do drible. Neymar não precisa do nosso perdão, nós é que precisamos de grandeza para reconhecer que fomos contemporâneos de um mito que apesar das críticas, honrou a dinastia da camisa 10.
O talento de Neymar Jr. é muitas vezes mais celebrado pela imprensa internacional do que pela brasileira, especialmente em grandes centros do futebol como França, Espanha e Inglaterra. Fora do país, o foco costuma recair sobre sua capacidade técnica única de improviso e sua relevância estatística.
Abaixo, apresento algumas manchetes históricas e recentes de grandes jornais internacionais que exaltam o “menino Ney”:
L'Équipe (França): "Neymar, le magicien du Parc" (Neymar, o mágico do Parque). Manchete após uma atuação de gala no Parque dos Príncipes, onde o jornal destacou que ele "pertence a outra dimensão".
The Guardian (Reino Unido): "Neymar is a genius of the unexpected – we should enjoy him while we can" (Neymar é um gênio do inesperado – deveríamos aproveitá-lo enquanto podemos). Artigo opinativo que enaltece a raridade do seu estilo de jogo.
Marca (Espanha): "Neymar, o único que se senta à mesa de Messi e Cristiano" (Publicada durante seu auge no Barcelona e início no PSG, reconhecendo-o como o terceiro elemento da elite mundial).
The New York Times (EUA): "Neymar: The Last Great Entertainer" (Neymar: O último grande mestre do entretenimento). O jornal americano destacou sua função quase lúdica de transformar o futebol em espetáculo.
Mundo Deportivo (Espanha): "Exhibición histórica de Neymar" (Exibição histórica de Neymar). Título comum após a famosa virada do Barcelona sobre o PSG (6-1), em que Neymar foi apontado como o verdadeiro arquiteto do milagre.
Arab News (Arábia Saudita): "Neymar Jr: A global icon lights up the Saudi Pro League" (Neymar Jr: Um ícone global ilumina a Liga Saudita). Manchete focada no impacto comercial e técnico de sua chegada ao Al-Hilal.
Al Jazeera (Catar): "Why Neymar remains Brazil's indispensable superstar" (Por que Neymar continua sendo a superestrela indispensável do Brasil). Análise que defende a importância técnica dele para a seleção, acima de qualquer crítica.
Um dos pontos cruciais para entender a atual polarização em torno de Neymar Júnior é a indissociável mistura entre o campo e a política. É impossível analisar o volume e a virulência das críticas ao jogador nos últimos anos sem passar pelo seu explícito posicionamento político, que o colocou em rota de colisão direta com os setores de esquerda no Brasil.
Ao declarar apoio aberto e participar ativamente de campanhas de figuras da direita brasileira, Neymar rompeu a bolha da "neutralidade esportiva" e tornou-se um alvo político. Para uma parcela da população, o julgamento sobre seu futebol passou a ser filtrado pelas suas convicções ideológicas. A partir desse momento, cada queda em campo, cada lesão ou cada postagem em redes sociais deixou de ser apenas um fato esportivo para se tornar munição em uma guerra cultural.
Diferente de atletas que mantêm suas visões no âmbito privado, Neymar não se furtou ao embate público. Se por um lado isso consolidou uma base de apoio fiel entre admiradores da direita, por outro, ergueu um muro de resistência entre ele e uma parte significativa do país, inclusive alguns jornalistas e veículos de comunicação.
Dessa forma, a análise técnica de seu talento muitas vezes se perde em meio ao ruído das paixões partidárias. No Brasil de hoje, criticar ou elogiar Neymar tornou-se, para muitos, um marcador de posição política, tornando o debate sobre sua importância histórica para o futebol muito mais complexo e, infelizmente, menos focado no que ele faz com a bola nos pés.
Agora nos resta aguardar a convocação da lista final da seleção brasileira no dia 18 de maio, e muito mais que isso, torcer para que seu planejamento de recuperação seja exitoso e ele chegue na Copa do Mundo com plenas condições de colaborar com o técnico Carlo Ancelotti na missão de conquistar o Hexacampeonato para o Brasil.
Seguimos contando histórias !!!
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