Assistir ao Corinthians conquistar seu heptacampeonato brasileiro na Neo Química Arena, diante de mais de 41 mil torcedores, me fez refletir sobre a trajetória extraordinária do futebol feminino no Brasil. Testemunhei uma transformação que poucos imaginavam há uma década.
A ironia inicial não pode ser ignorada: o que hoje celebramos como um dos maiores sucessos do futebol brasileiro nasceu de uma imposição. A exigência da Conmebol de que clubes masculinos mantivessem equipes femininas para participar de competições sul-americanas forçou uma mudança estrutural. Antes disso, éramos um país onde o futebol de mulheres existia nas sombras, disputado em estádios vazios, sem transmissão e com premiações simbólicas.
Hoje, vejo um cenário completamente diferente. A CBF estabeleceu uma transição no formato da competição até 2027, quando a elite contará com 20 clubes, demonstrando um crescimento planejado e sustentável. A Copa do Brasil feminina contará com 64 equipes, expandindo significativamente a base competitiva nacional.
O desenvolvimento estrutural impressiona. Nove competições serão disputadas, criando um calendário robusto que profissionaliza ainda mais a modalidade. A Liga de Desenvolvimento CBF Transforma representa outro passo crucial na formação de base, garantindo que o futuro do futebol feminino brasileiro tenha alicerces sólidos.
Contudo, quando analiso nosso posicionamento global, percebo que ainda há um longo caminho. O Brasil ocupa atualmente a sétima posição no ranking FIFA feminino, uma queda de três posições que evidencia a competitividade crescente mundial. Países como Espanha, que assumiu a liderança, investiram pesadamente em infraestrutura, ligas profissionais e desenvolvimento técnico.
A diferença se torna mais clara quando observo o cenário europeu. Enquanto celebramos 41 mil torcedores numa final brasileira, ligas como a inglesa WSL e a espanhola Liga F registram médias de público consistentemente altas e contratos de transmissão milionários. O salário médio das jogadoras europeias é exponencialmente superior ao brasileiro, permitindo dedicação exclusiva ao futebol.
Porém, nossa perspectiva é animadora. O Brasil sediará a Copa do Mundo Feminina de 2027, uma oportunidade única para acelerar nosso desenvolvimento. Historicamente, países-sede experimentam saltos qualitativos significativos em suas modalidades.
A premiação de R$ 1,6 milhão pelo título brasileiro do Corinthians, embora ainda modesta comparada aos padrões internacionais, representa um progresso imenso. Lembro-me quando as campeãs levavam apenas medalhas para casa.
Vejo no futebol feminino brasileiro um espelho do que o masculino foi nos anos 1970-80: talento abundante aguardando estrutura adequada. Temos atletas de qualidade mundial, paixão da torcida emergente e, finalmente, apoio institucional crescente.
O momento é de otimismo cauteloso. Estamos construindo algo sólido, mas ainda distantes dos padrões mundiais de excelência. A Copa de 2027 pode ser nosso divisor de águas, transformando potencial em realidade consolidada. O futuro promete, desde que mantenhamos o investimento e a seriedade com que hoje tratamos essa modalidade.
ROBERTO MAIA É JORNALISTA, ESCRITOR, CRONISTA ESPORTIVO E EDITOR DO PORTAL TRAVELPEDIA.COM.BR
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