O esporte brasileiro vive um momento de introspecção profunda, marcado por uma sensação persistente de orfandade. Não se trata de ausência de talento ou de falta de vitórias, mas da escassez daquela figura mística, o ídolo nacional absoluto. Aquele atleta que, independentemente da modalidade ou da camisa que vestia, parava o país, unificava narrativas e servia de bússola moral e técnica para gerações. Hoje, olhamos para o passado com uma nostalgia que beira o lamento, tentando entender em que curva do caminho perdemos a fábrica de mitos que parecia inesgotável.
No futebol, o cenário é o mais emblemático. Houve um tempo em que o Brasil não apenas jogava bola, o Brasil ditava o ritmo do mundo através de deuses terrenos. Falar de Pelé, Garrincha e Nilton Santos é evocar a era de ouro em que a genialidade era o padrão. A sucessão de tronos parecia natural com Rivelino a Zico, de Roberto Dinamite a Romário. Eram jogadores que possuíam uma conexão visceral com o povo. O ídolo daquela época não era apenas um ativo de marketing de um clube europeu, mas era alguém que víamos de perto, cujas falhas eram humanas e cujas conquistas pareciam extensões da nossa própria felicidade. Atualmente, o distanciamento físico e a precocidade das transferências internacionais criaram um hiato afetivo que nenhum algoritmo de rede social consegue preencher. O último ídolo e craque do futebol brasileiro surgiu para o esporte nacional como protagonista em 2010 e desde então com inúmeras oscilações e uma clara queda de rendimento técnico e físico, Neymar segue sendo a principal esperança de um “algo a mais” para a nossa seleção, mesmo quinze anos depois.
Essa carência não se restringe aos gramados. O paralelo nos esportes olímpicos e em outras categorias é igualmente sintomático. O Brasil acostumou-se a dominar piscinas com a elegância de Gustavo Borges e a explosão de Fernando Scherer, o Xuxa. Nas quadras de saibro, a "Era Guga" não apenas trouxe títulos, mas humanizou o tênis através do sorriso de Gustavo Kuerten. No judô, tínhamos a solidez de Aurélio Miguel. E, claro, há o trauma coletivo jamais superado de Ayrton Senna no automobilismo, o maior exemplo de como um atleta pode carregar a autoestima de uma nação inteira nos ombros. Eles não eram apenas competidores, mas eram referências de conduta, resiliência e identidade nacional. Entretanto, seria um erro diagnóstico dizer que o Brasil está em um deserto absoluto. O que vivemos é uma transição de perfil. A atualidade nos apresenta nomes que, embora inseridos em uma dinâmica de consumo muito mais fragmentada, tentam carregar essa tocha.
Rayssa Leal, a "Fadinha" do skate, é o maior sopro de frescor dos últimos anos, trazendo carisma e uma conexão inédita com o público jovem. No mar, Gabriel Medina elevou o surf a um patamar de profissionalismo e domínio mundial nunca antes visto por um brasileiro. Mais recentemente, no tênis, a ascensão do jovem João Fonseca reacende a esperança de vermos novamente o Brasil entre os protagonistas de um esporte tradicionalmente elitista.
A grande questão é se esses novos nomes conseguirão atingir o status de "unanimidade nacional" que seus antecessores desfrutavam. O mundo mudou, a idolatria hoje é dividida por bolhas, mediada por contratos publicitários e fragmentada em vídeos de poucos segundos. O sentimento de perda de referências talvez seja, na verdade, a saudade de um tempo em que o esporte era o nosso principal espelho de heróis. Rayssa, Medina e Fonseca têm o talento e cabe ao tempo e a nossa capacidade de nos reconectarmos com nossos talentos, transformar a promessa em lenda e preencher o vazio deixado pelos gigantes do passado.
E dentre essa dura realidade em relação a carência real de “heróis”, nesta semana nos deparamos com um movimento impar que através de conceitos absolutamente estapafúrdios, quase coloca em cheque a tradição do manto da seleção brasileira.
Não, não vestimos "canary”e muito menos gritamos "Vai Brasa”nos estádios. Somos o Brasil das camisas amarelas do nosso lindo sol ou do azul de Nossa Senhora Aparecida. Vestimos e vibramos com a “amarelinha” e isso ninguém irá tirar de nós.
Este Brasil com “S” tem muito orgulho de ser ouvido, mesmo em nações onde ele aparece com “Z”, pois o respeito pela sua terra e o amor pelo seu povo é a gratidão de valores inegociáveis que ainda vive no coração dos verdadeiros brasileiros.
Viva Esporte, Viva o Esporte.
Seguimos contando histórias !!!
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