Sob o comando do carnavalesco Jorge Freitas, a Dragões da Real reafirmou sua posição como uma das potências do Carnaval de São Paulo. Com uma estética refinada e um acabamento impecável, marcas registradas do artista, a escola transformou o Anhembi em uma imensa aldeia amazônica para narrar a lenda das Icamiabas, as mulheres guerreiras que viviam sem homens e protegiam as riquezas da floresta.
O desfile foi estruturado em uma narrativa que uniu o mitológico ao contemporâneo.
O abre-alas impactou o público com um dragão de 12 metros de altura e movimentos articulados, simbolizando a proteção da floresta.
Jorge Freitas optou por uma paleta de cores que fugiu do óbvio: o verde exuberante dividiu espaço com tons terrosos, representando o habitat, e o preto, que simbolizava a "escuridão da morte" causada pela destruição ambiental.
O setor final trouxe o "dedo na ferida", como definido pelo próprio carnavalesco em entrevistas pré-desfile, questionando a ganância do "novo invasor" e a urgência da preservação ambiental.
O samba-enredo, interpretado com a garra habitual de Renê Sobral, foi um dos pontos altos. A comunidade da Vila Anastácio cantou com vigor, especialmente no refrão: "Quando o chão estremecer, Juremá, Juremê / Quando o rio chorar, Juremê, Juremá".
A bateria "Ritmo que Ressoa", sob a batuta de Mestre Klemen Gioz, sustentou a cadência com perfeição, apresentando bossas que remetiam aos sons da floresta e à força dos tambores indígenas. À frente dos ritmistas, a rainha Karine Grum celebrou seus mais de 20 anos de casa com uma fantasia que representava a metamorfose das guerreiras em animais sagrados.
"Foi um desfile de alma. Ver a comunidade abraçar um tema indígena com tanta propriedade mostra a maturidade da Dragões", afirmou Márcio Santana, diretor-geral de Carnaval, logo após o fechamento dos portões.
Com uma exibição tecnicamente perfeita e encerrada rigorosamente dentro do tempo (65 minutos), a Dragões da Real saiu da avenida aclamada pelo público e apontada por especialistas como uma forte candidata a figurar nas primeiras posições. Após bater na trave em anos anteriores (como os vice-campeonatos de 2017, 2019 e 2024), o grito de "campeã" ecoou forte nas arquibancadas do Anhembi.

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